Coleção: Raízes feministas em tradução
A coleção Raízes Feministas reúne traduções ao português de textos de mulheres que desafiaram estruturas opressivas e questionaram a subordinação feminina ao longo dos séculos e em diferentes lugares, retomando memórias e inspirando novas reflexões. Se a tradição patriarcal buscou silenciar as vozes femininas, este projeto, feito em colaboração entre pesquisadoras tradutoras de diferentes universidades do Brasil e do exterior, reafirma a importância da tradução como ato político e tem como objetivo amplificar essas vozes, reconhecendo sua força e relevância.
O primeiro volume, Raízes Feministas em Tradução: Italiano, lançado em 2022, foi organizado pelas professoras Ana Maria Chiarini, Andréia Guerini e Karine Simoni. A coletânea contém textos de nove autoras da península italiana que escreveram em um arco de tempo que vai do século XIV ao XIX, dentre elas Veronica Franco, Moderata Fonte, Lucrezia Marinella, Arcangela Tarabotti e Cristina Trivulzio di Belgioioso. O contato com a obra dessas escritoras permite observar diferentes formas de enfrentamento às restrições impostas às mulheres da sociedade italiana, assim como as reivindicações em defesa do direito à educação letrada, à participação no mundo das letras, da filosofia e da arte como autoras e à autonomia das mulheres.
O segundo volume, Raízes Feministas em Tradução: Francês, de 2024, reúne textos de autoras francesas da Idade Média ao século XIX, e foi organizada pelas professoras Luciana Calado Deplagne e Marie Helene Catherine Torres. O percurso das nove autoras escolhidas, dentre as quais Christine de Pizan, Marie de Gournay, Olympe de Gouges, Germaine de Staël, Flora Tristan, Julie-Victoire Daubié e Maria Deraismes, é revelador não apenas de sua produção literária e filosófica, mas também de sua atuação política e social. Para elas, escrita e prática eram indissociáveis: sua presença nas ruas, nas assembleias e em outros espaços públicos evidencia seu compromisso com a transformação social.
O terceiro volume, Raízes Feministas em Tradução: Inglês, de 2026, organizado por Alinne Balduino Fernandes, Carolina Geaquinto Paganine e Vanessa Lopes Lourenço Hanes, reúne escritos de quinze autoras provenientes de diferentes contextos históricos, étnicos e geopolíticos, contemplando uma ampla diversidade de temas, gêneros e formas de expressão do século XVI ao final do século XIX. Dentre as autoras reunidas encontram-se Elizabeth I, Aphra Behn, Jane Sharp, Mary Astell, Mary Wollstonecraft, Betsey Guppy Chamberlain, Sojourner Truth, Pandita Ramabai Sarasvati. Essa variedade de autoras de diferentes nacionalidades pode também ser explicada pelo alcance da língua inglesa: embora pertencente ao ramo germânico ocidental, juntamente com línguas como o alemão, o neerlandês e o africâner, o inglês alcançou uma projeção muito mais ampla, consolidando-se em diferentes regiões do mundo em estreita relação com processos históricos de colonização e com a hegemonia política e militar de países anglófonos.
Novos volumes estão sendo organizados: Raízes Feministas em Tradução: Alemão, Raízes Feministas em Tradução: Espanhol e o segundo volume de Raízes Feministas da Tradução: italiano, este último com financiamento do CNPq, dentro do projeto universal.
As escritoras aqui traduzidas e em processo de tradução/ publicação, com suas trajetórias singulares e ao mesmo tempo muito próximas entre si na busca pelos direitos das mulheres, resistiram às tentativas de apagamento e deixaram um legado de coragem, sororidade e inteligência. Todas elas, cada uma a seu modo, desafiaram as normas de sua época e reivindicaram um papel mais ativo para as mulheres na sociedade. Seus escritos influenciaram gerações futuras, contribuindo para a consolidação do pensamento feminista que se fortaleceu entre os séculos XIX e XX e que este projeto, feito a muitas mãos, se dispõe a recuperar, traduzir e fazer circular.
